"De repente tudo vai ficando tão simples que assusta. A gente vai perdendo as necessidades, vai reduzindo a bagagem. As opiniões dos outros são realmente dos outros, e mesmo que seja sobre NÓS, não tem importância. Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada. E isso não faz a menor falta. Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado, e sim a vida que cada um escolheu experimentar. Por fim, entendemos que tudo o que importa é ter paz e sossego, é viver sem medo, é fazer o que me alegra, o que me faz bem, o que me faz feliz. É só."
23 de jun. de 2014
21 de jun. de 2014
Às vezes é amor. Às vezes é só apego.
Eu tenho um costume estranho, ou talvez só um pouquinho diferente, de destacar partes de livros que leio e conectá-las a outros enredos. Ainda que não seja sobre a minha vida, a ideia de deslocar o drama de outra pessoa ou personagem faz com que eu me sinta capaz de fantasiar histórias que eu gostaria de ter vivido ou que eu gostaria de ter sentido. Numa dessas, enquanto lia e movia o celular com maestria num café vazio no meio da cidade, me deparei com a dramática sentença que mudou minha semana:
“Existe uma linha sutil entre adaptação e apego.”
Fui atingido por um trem em altíssima velocidade no exato momento em que terminei a leitura do ponto final. Será que eu sou uma dessas pessoas que se deixa levar por um comodismo barato que se apodera de algumas relações afetivas? Nah, eu sempre estive acima disso, pensei com ingenuidade. Mas a volta de ônibus pra casa foi turbulenta. Enquanto o motorista derrapava pela décima vez por uma via molhada, eu derrapava pra dentro de mim pensando em como seria possível distinguir apego de outra coisa.
A adaptação é o período correspondente à calmaria dos relacionamentos. Você sabe do que eu falo, é quando o namoro dá uma estacionada de leve e as coisas parecem todas iguais. Não que isso seja ruim, pelo contrário, parece que finalmente a gente achou aquele amor com sabor de fruta mordida, calminho, bom pra passar os domingos juntos e construir alguma coisa edificante e sólida e, pera, será que isso não é só uma desculpa pra não admitir pra mim mesmo que as coisas têm sido todas iguais e que aquela chama toda, aquele amor-combustível que movia a gente, pode ter chegado ao fim? Não, não é a rotina em si, é quando o sentimento estaciona. Imagina que o sentimento não evoluiu durante a coisa toda e que o desgaste vai batendo, arranhando, sujando a lataria.
Não é nem um pouco fácil, pelo menos pra mim, perceber e admitir isso. Paixão e apego podem ser sentimentos parecidos quando não se tem certeza do que se sente e de como funciona o nosso fluxo emocional. Pra mim calmaria significa morte decretada de um casal. Quando a gente passa a semana sem se falar, coisa e tal, e isso não incomoda nem um pouco. Quando a gente começa a se questionar se sentiria falta ou não, e acaba não sentindo mesmo. Tá, eu sou confuso, mas talvez você também seja e esteja nessa.
Descobrir se o namoro se tornou puro apego é complicado. Ainda mais quando bate aquela vontade de ir embora, porque, do contrário, a gente ficaria à beira de uma estrada pedindo carona, já que o carro não tem mais rota, nem combustível, nem motoristas aptos a conduzir o veículo. Pior do que descobrir, é o ato de admitir pra si mesmo. Sério, quem em sã consciência jogaria um balde de água gelada num castelo de areia que foi construído com tanto carinho? Talvez alguém que conseguisse fazer metáforas melhores que as minhas e alguém que quisesse ser realmente feliz. Sabe, tenho a impressão de que o apego faz a gente ficar mais pelo outro do que por nós mesmos, como bons samaritanos. Mas a verdade é que bate um medo danado de perder tudo aquilo, perder o outro, perder o companheirismo. Bate um medo danado de ficar sozinho, de ter feito burrada e errado, de sentir falta (você vai sentir, com certeza) e coisas do tipo. Admitir que é apego congela a gente, e é preciso coragem pra sair dessa inércia e resolver correr atrás de outra chance de ser feliz (ou quebrar a cara).
Digo, olha pra esse motorista do ônibus no qual estou, ele claramente não sabe o caminho, mas tá tentando chegar lá. Pode demorar, a gente pode reclamar, ele pode se sentir confuso, mas vai que ele chega. Na pior das hipóteses, ele liga o GPS ou pede ajuda pra alguém. E não é tão diferente assim na vida real. A gente não precisa ser vilão, eu acho. Basta explicar tudo direitinho, agradecer pela estadia, explicar que não existe culpa, que você quis se dar mais uma chance de ser feliz e sentir tudo aquilo que as pessoas merecem sentir: um arrepio na barriga enjoado que nem parece aquele bonito que é descrito nos livros de romance. Explica isso, fecha a porta do carro com carinho e assume a responsabilidade de pegar o seu futuro nas mãos e fazer o que bem entender com ele. Vamos acabar descobrindo sozinhos se foi bom ou ruim, se foi a decisão certa ou não, se era amor ou se era apego. Se era apego, bom, bem-vindo de volta à trilha. Se era amor, mantenha a calma: você só vai precisar achar um jeito diferente de achar a estrada de volta pra casa.
- Daniel Bovolento
19 de jun. de 2014
18 de jun. de 2014
16 de jun. de 2014
Se ela puxa a coberta no meio da noite e não levanta pra fechar a janela, te deixa com frio e nem liga, vira pro lado e ainda dobra as pernas em cima da tua esquerda, fazendo um peso danado, te imobilizando como se não quisesse te deixar sair dali, fala. Fala baixinho, num sussurro que corte ou atravesse a pele dela sem machucar, quase como se quisesse que ela inalasse a ternura das palavras misturadas com irritação por ter sido deixado à revelia, mas fala. Diz pra ela que cabem sempre dois no mesmo espaço e que as leis da física se enganam quando desconsideram abraços.
Se ela desliga o celular ou deixa no fundo da bolsa, se esquece de ligar ou atender e te faz esperar por horas, sem nem justificar que ficou presa no trânsito ou que o chefe pediu pra correr com o projeto ou petição, brada. Esbraveja numa mensagem de voz (que ela não vai ouvir) e fica lá plantado, esperando e bufando, com vontade de voltar pra casa e lavar o perfume que botou pra ela, mas espera um pouco mais porque você precisa gritar. Bota pra fora a impaciência e ouve as explicações dela que vão te causar compaixão, e o vinho vai descer mais doce, assim como as suas desculpas por ser sempre tão rude enquanto ela ri.
Se ela abaixa a cabeça e não sabe explicar alguma coisa, ou mente pra você e diz que dessa vez vai embora, que sabe que foi a pior coisa que aconteceu na sua vida e se envergonha, para. Segura com firmeza e pede pra ela não se esquecer de quanta chuva, de quanta estrada, dos buracos todos, daquele pneu rasgado, do rádio falhando e do iPod que botou numa música qualquer e vocês determinaram que era aquela, mas faça-a parar. Para de remoer cada coisinha errada que ela faz como se todas fossem umas âncoras pesadas que você não tá disposto a carregar e vê o mundo dela com flores, amores e espinhos distribuídos por aí. Aprende a caminhar com ela, você vai se cortar, se arranhar, arrancar as pétalas delas, arrancar uns cabelos, bater a porta do carro, mas não esquece de como você chegou aí e para a mala dela antes de partir.
Se ela chora e você não sabe como consolar porque nem é tão bom assim nas palavras, ou se ela se enrola num edredom e diz que quer ficar sozinha e você se sente mal mesmo não tendo nada a ver com isso, mesmo sabendo dos problemas dela sem saber muito bem como ajudar, mesmo querendo ter super poderes pra deixar as coisas mais risíveis e menos amargas, repara. Repara nela e na pinta da coxa esquerda em forma de coração que ela esconde com as saias, com as calças verdes vermelhas amarelas e azul é a cor preferida dela. Não para e tenta fotografar cada passo dela como se o seu registro contasse uma história, como se os teus olhos fossem lentes intercambiáveis que se revezam pra enxergá-la, e monta um álbum na memória. Mostra pra ela sempre que ela precisar se achar em alguém e fala tudo o que um dia já viu nela.
Se ela aceitar as cenas e for imprevisível como você acha que ela é, se reagir com um sopro ou soco, com ferocidade ou doçura cafuné beijo na testa e juras de quem não puxa nunca mais o cobertor, se cala. Fica quieto e deixa que ela ponha tudo pra fora e que cada figura batida se restabeleça num clichê bonito de um sábado à noite, troca as ruas pela sala e pela pipoca e se veste com pijamas pra brincar com o cabelo dela. Se ela te disser que ama e que falha, que bem vai com a tua cara, pode soltar esse sorriso frouxo e dizer pra ela tudo o que você guarda. Balbucia, soletra, escreve, brada, não importa bem o jeito, importa mesmo é que você fale. E conte pra ela, em forma de prosa ou poesia, o que ela significa pra ti.
- Daniel Bovolento
Cuida, ou cuidam pra você.
Rapaz, diz pra ela que o meu bom dia ainda é dela. E que, se der, outro dia a gente se esbarra e eu levo umas flores pra ela. Faz dela um porto inseguro pra não se deixar levar pela rotina da maré calma. Beija o nariz dela que ela acorda na mesma hora e ainda dá uma espreguiçada com um sorrisão de partir o meu coração por não poder mais acordar ao lado dela. Ô rapaz, cuida dela com ternura. Essa garota precisa de alguém com tempo e com todo o coração do mundo pra entender a alma dela. Deixa ela descansar a cabeça no seu ombro, mesmo que você sinta um pouco de medo de se mexer. Eu nunca consegui ficar quieto com ela do lado.
Diz pra ela que ela é meu sonho bom. E que vai ser dureza não ter ligação nenhuma no meu celular pra responder. Coloca um toque personalizado, mas não escolhe nenhuma música especial pra vocês dois, rapaz. Puxa pruma valsa que ela sabe dançar bem demais. Ela tem um jeitinho de fugir dos meus braços que dá gosto. E não cai na armadilha dela, não. Se enroscar no pescoço dela é perigoso porque você pode ficar ali por tempo demais e se esquecer de olhar bem nos olhos dela. Diz pra ela que eu sei que eles não são castanhos, rapaz. Os olhos e ela são doces como mel. Dá pra sentir no gosto do primeiro beijo na chuva. E carrega sempre um remédio pra alergia na carteira. Dá pra prevenir os olhos dela de lacrimejarem por algum motivo bobo. Cuida bem pra ela não chorar, viu?
Diz pra ela que eu guardei os ingressos do nosso primeiro cinema e que ontem tava passando o filme na Sessão da Tarde. Pergunta se ela viu e se lembrou de mim durante os comerciais. Pergunta se ela ainda discute Godard com alguém ou se gostou de algum blockbuster recente e não quis confessar. Rapaz, ela sabe de tudo no mundo. Puxa assunto com ela, mas não deixa o silêncio consumir vocês dois. Ela é tagarela demais – e boa coisa não é se ela começar a ficar quieta. Aquieta o rosto no colo dela e deixa uma barbinha rala pra ela sentir cócegas. Ah, você faz bem em levar dois edredons pra cama porque senão corre o risco de passar frio. Ela é meio egoísta durante o sono. Diz pra ela que eu sinto falta das conchinhas e que até parei de reclamar da dor nos braços. Abraça forte sempre que der e escreve uns poemas também. Garanto que ela vai te inspirar a escrever um livro inteiro.
Ô rapaz, diz pra ela que eu soluço só de pensar em como vai ser daqui pra frente e que o meu norte foi embora junto dela. E diz também que eu reconheço que ela deve ser mais feliz com você do que comigo. Diz que eu não me conformo, mas vou tentar pensar nisso como um desvio de percurso – e que, até a gente se reencontrar, eu vou tentar garantir a felicidade dela por meio de umas dicas e recomendações que eu vou dar pra você. Ela gosta de beijos molhados e pouca agilidade na hora de se despir. O suor dela tem um gosto bom, rapaz, então não precisa – e nem pode – ter nojinho com ela. Compra cerveja ao invés de vinho e põe o chinelo dela na entrada pra ela se livrar logo do salto quando chegar. Não trabalha muito até tarde porque ela vai depender de alguma atenção sua pra ter certeza de que fez uma escolha justa em me deixar. E fala sobre música, sobre algo de blues e jazz e deixa ela sentar pra tocar piano naquele restaurante grã-fino dos Jardins. Diz pra ela que eu aprendi uma partitura pra poder me lembrar dela.
Cuida bem dela e diz pra ela que um dia a gente se encontra se ela resolver que dá pra ser feliz aqui. Mas se ela preferir ficar por aí, faz dela o seu grande amor, rapaz. Diz pra ela que a solidão só anda doce porque eu ainda penso nela. E dá um beijo de boa noite na testa dela por mim, rapaz. E não precisa dizer nada depois disso. Ela vai fechar os olhos e se lembrar de mim.
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