
Desisti. E isso é a coisa mais triste que tenho a dizer. A coisa
mais triste que já me aconteceu. Eu simplesmente desisti. Não brigo mais com a
vida, não quero entender nada. (…) Vou nos lugares, vejo a opinião de todo
mundo, coisas que acho deprê, outras que quero somar, mas as deixo lá. Deixo
tudo lá. Não mexo em nada. Não quero. Odeio as frases em inglês, mas o tempo
todo penso “I don’t care”. Foda-se. (…) Me nego a brigar. Pra quê? Passei uma
vida sendo a irritadinha, a que queria tudo do seu jeito. Amor só é amor se for
assim. Sotaque tem que ser assim. Comer tem que ser assim. Dirigir, trabalhar,
dormir, respirar. E eu seguia brigando. Querendo o mundo do meu jeito. Na minha
hora. Querendo consertar a fome do mundo e o restaurante brega. Algo entre uma
santa e uma pilantra. Desde que no controle e irritada. Agora, não quero mais
nada. De verdade. (…) Não
quero arrumar, tentar, me vingar, não
quero segunda chance, não quero ganhar, não quero vencer, não quero a
última palavra, a explicação, a mudança, a luta, o jeito. (…) Quero ver a vida em volta, sem
sentir nada. Quero ter uma emoção paralítica. Só rir de leve e
superficialmente. Do que tiver muita graça. E talvez escorrer uma lágrima para
o que for insuportável. Nada pessoal. Algo tipo fantoche, alguém que enfie a
mão por dentro de mim, vez ou outra, e me cause um movimento qualquer. Quero
não sentir mais porra nenhuma. Só não sou uma suicida em potencial porque ser
fria me causa alguma curiosidade. O
mundo me viu descabelar, agora vai me ver dormir e cagar pra ele. Eu quis tanto ser feliz. Tanto. Chegava a ser arrogante. O
trator da felicidade. Atropelei o mundo e eu mesma. Tanta coisa dentro do
peito. Tanta vida. Tanta coisa que só afugenta a tudo e a todos. Ninguém dá
conta do saco sem fundo de quem devora o mundo e ainda assim não basta. Ninguém
dá conta e… quer saber? Nem eu. Chega. Não quero mais ser feliz. Nem triste.
Nem nada. Eu quis muito mandar na vida. Agora, nem chego a ser mandada por ela.
Eu simplesmente me recuso a repassar a história, seja ela qual for, pela
milésima vez. Deixa a vida ser como é. Desde que eu continue dormindo. Ser
invisível, meu grande pavor, ganhou finalmente uma grande desimportância. Quase
um alivio. I don’t care.
-Tati Bernardi