23 de set. de 2014

Mentira

Mas se eu fosse colocar no papel, de verdade, tudo mais o que você levou, talvez você tenha levado uma parte da minha vida quando bateu a porta também. E sabe qual foi a primeira coisa que eu fiz antes de arrumar a bagunça que você deixou? Eu corri para o espelho para me dizer que estava tudo bem.
Tudo bem. Era só a milionésima quarta vez que eu contava essa mentira. Ou mais até. Depois da décima, perdi a conta. A mentira perdeu a força também. Dizem que, quando contada muitas vezes, uma mentira se torna verdade. Mas como mentir na cara dura para o seu próprio reflexo quando aquele olhar zombador te diz: “na boa, garota, chora aí que ninguém tá vendo”?
E fiquei lá, sentada na minha cadeira de balanço imaginária, repetindo como um mantra: tudo bem, tudo bem, tudo bem, tudo bem. E eu fui repetindo isso em cada esquina da minha vida. Fui empurrando com a barriga todas as minhas dores, numa pressa doentia de ser feliz logo. Porque quem quer ser feliz logo não pode dar tempo para a tristeza. Porque quem quer ser feliz logo não para e chora suas dores. E quem quer ser feliz logo não fica com vontade de desistir de tudo só porque o namoradinho, depois de cinco anos, bateu a porta e disse que nunca mais ia voltar. Nem quando a melhor amiga conta todos os seus segredos para as pessoas que mais te odeiam. Nem quando seus pais param de falar com você porque você não seguiu a carreira que eles queriam. Quem quer ser feliz logo não chora por isso. Não é?
Só que, hoje, eu resolvi contar a verdade só um pouco. Para mim mesma, nem precisei espalhar para o resto do mundo. Porque não, muita coisa não ficou bem. Os gritos que eu ouvi (e fingi que não) continuam ecoando em meus ouvidos. As decepções que engoli em seco e nunca joguei na cara de ninguém ficaram perdidas em vinganças que eu nunca dei – mas sempre quis dar. Nada bem. Ficou tudo aqui, marcado, silenciado, escondido, para o dia que eu resolvesse ser sincera com o meu próprio coração. E entre nós dois, amigo, a gente sabe: tem mais dores do que a gente pode aguentar. Então, hoje, falemos a verdade: não, não tá tudo bem. Quem sabe assim comece a passar.
KARINE ROSA